Todos os dias cai-me um pedaço, diminui a minha protecção contra o mau tempo. Todos os dias vou largando bocados de mim, para que alguém repare enquanto passa. Todos os dias choro por dentro quando me cruzo com os erros que cometi. Todos os dias desejo mais, numa sofreguidão suicida para que não me devore a mim próprio de uma só vez.
Era bom demais para ser verdade.
Lá no fundo, detrás de todas aquelas máscaras, detrás de todas aquelas ligaduras, detrás de todos aqueles sorrisos envergonhados, detrás de todo aquele colosso… estava um abismo. Um poço. Um sem-fim de coisa nenhuma, de uma fome de ânsia de querer esconder e não encontrar. Uma vontade livre de se prender sem deixar amarrado, uma salganhada de sombras, momentos e fogos por apagar. Uma floresta antiga, obscura, doente e sem vontade de se estender em direcção ao céu.
Um lobo em pele de cordeiro. Algo que afinal é feio, não belo. Que afinal chora, não ri. Que afinal quer dar, mas receber ainda mais.
Era bom demais para ser verdade.
Já está.
Despi-me.
Rasguei o peito com as minhas próprias mãos.
Usei as cicatrizes, porque assim foi mais fácil de abrir.
Está tudo à mostra, em carne viva.
Basta um sopro e ele desfaz-se.
Mesmo assim, mesmo que ele se desfaça em milhões de pedaços e caia lentamente, como um lamento de gelo que derrete antes de tocar o chão, mesmo assim… eu vou apanhá-lo. Vou recontrui-lo. Colo-o com fita-cola e encaixo-o no lugar dele.