O dia correra-lhe mal. Muito mal. Pior do que no dia em que o céu veio à terra e todas as flores do mundo murcharam, e todas os rios pararam, e todos os corações choraram um pouco. Estava de rastos. Não conseguia deixar de pensar no que tinha visto quando chegara a casa.
Ainda não conseguia abster-se nem por um segundo do que vira. O seu amor de vida, o seu mais que tudo, a sua esperança de ter um futuro minimamente decente esvanecera-se. Todas as esperanças desapareceram num “cagagésimo”, no preciso momento que abrira a porta do quarto. Estava outra mulher com a pessoa que lhe jurara amor eterno… tanto na igreja tanto em dezenas de vezes, naqueles momentos de prazer a dois, em que se dizem certas coisas ao ouvido, em surdina…
Saiu.
Resolveu entrar no supermercado. Talvez as compras, a distracção de olhar e não olhar para as prateleiras de produtos lhe levasse os pensamentos para outro lado… para longe do quarto. Para longe dos anos já passados ao lado dele. O supermercado era pequeno. Nunca tinha lá entrado, todavia tinha um odor igual a tantos outros supermercados. A mistura de fruta fresca, pão, queijo, embalagens de plástico e de cartão, o chão lavado com detergente barato…
Mas não conseguia.
Assim que abriu o telemóvel e viu o wallpaper com a imagem das férias em Istambul desatou a chorar. Baba e ranho. Um misto de tentativa de controlo, porque afinal estava num supermercado, e um sentimento de indiferença pelo espectáculo que as outras pessoas poderiam estar a presenciar. Com os olhos envoltos numa película salgada, procurou ávidamente por um lenço de papel, na mala que imitava de uma maneira muito barateira uma Pierre Cardin… Nada… Nem um daqueles já usados e que iam ficando no fundo da mala… Apercebeu-se que finalmente já tinha alguma coisa que comprar.
Dirigiu-se à caixa. O empregado, olhava para ela com ar interrogante, sem saber se ficava calado, a fazer o trabalho que lhe competia, ou perguntar se precisava de algum tipo de ajuda. Ela só queria sair dali. Sem conseguir ainda parar de chorar, olha para o caixa por um segundo… não era grande coisa, tinha a barba por fazer… Baixa os olhos, paga, nem quer troco, e como que foge com pressa…
Dedicado a todas as pessoas que não têm vergonha de chorar na rua, e trazer à realidade dos outros a consciência de que há mesmo vidas de merda.



Tinha saudades de “te” ler.
Este blog acorda de mês a mês… mas é tão bom quando acorda…
Não imaginas como “vivi” este relato…
Ultimamente também penso que há mesmo vidas de merda… contudo, sempre com a esperança que seja só um dia ou outro de merda… passageiro…
Falou o caixa? ;)
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